
Fui a uma clínica realizar um breve procedimento e como tenho gostado cada vez mais de conversar com as pessoas nesses lugares, comecei a dialogar com a profissional que estava me atendendo. Falamos um pouco de amenidades e logo ela me comenta que suas colegas lhe disseram que deveriam me chamar por meu segundo nome, pois eu não gostava do meu primeiro nome.
Explico: Eu tenho nome composto, ou seja, dois nomes. Geralmente me apresento pelo segundo nome, pois cresci com as pessoas me chamando por ele. Entretanto quando tenho que fazer algum cadastro ou em ambientes acadêmicos é comum as pessoas me chamarem por meu primeiro nome e por mim está tudo bem. Assim que as funcionárias da clínica concluíram por si mesmas que eu não gosto do meu primeiro nome, mas para mim não há nenhum problema em ser chamada por qualquer um dos meus nomes.
Expliquei isso para ela e rimos juntas da conclusão das outras. Deixei-a confortável para me chamar como preferisse. Neste momento ela me comenta que ainda vive algumas situações parecidas por ter adotado o sobrenome do seu marido, mas não ter mudado o nome em seus documentos. Isso é muito frequente entre as mulheres no Brasil. A burocracia e o trabalho para alterar todos os documentos dificultam e fazem com que muitas levem anos para refazer os documentos tanto quando se casam, quanto quando separam. Em muitos momentos só o fazem por uma necessidade legal.
– Você quis mudar o seu nome? – perguntei para ela
– Na realidade não queria, mas meu marido achou que seria uma desonra. – ela me responde
Pensei: Desonra? Há muito tempo não escutava essa palavra. Por que um marido pode se sentir com vergonha, desonrado pelo fato da mulher que escolheu se casar com ele desejar preservar seu próprio nome?
– Você é casada? – ela me pergunta
– Sim, sou. – respondo
– Você mudou o seu nome? – ela me diz
– Não. Achei que perderia minha identidade, que deixaria de ser eu mesma. Preferi não mudar. – digo eu
– Nossa eu também não queria, mas na última hora, como ele estava ofendido acabei aceitando. – ela
– Pois é, já ouvi isso de outras mulheres. Acho estranho! – falei
Seguimos conversando, adentramos outros assuntos e depois ela me diz que estava mal, porque havia se separado. Há alguns dias havia mandado seu marido sair de casa. Me relatou alguns comportamentos infantis do marido, situações nas quais ele a havia desrespeitado flertando com outras mulheres, havia sido grosseiro e sentindo-se cansada decidiu separar, mas estava arrependida e queria que ele voltasse.
Tinha se arrependido por que, em sua visão, todas essas situações desagradáveis se tornam pequenas diante do que ela chamou de “jeito inocente dele”, ou seja, ele não fuma, não usa drogas, não bebe, nunca a agrediu e tem uma certa ingenuidade para algumas coisas (as quais ela não consegue me esclarecer). Ela diz que ele nunca fez nada grave para ela.
Com muito jeitinho, sem querer ser invasiva e percebendo o quanto ela está em sofrimento, pergunto:
– O que seria uma coisa grave para você?
– Me trair. – diz ela
– E tratar mal, ser grosseiro, te desconsiderar, você não considera grave? – pergunto
Ela fica um pouco atordoada e tenta defendê-lo e se justificar. Neste momento tenho plena certeza que ela ainda não tem condições de aceitar aquilo que ela mesma já percebeu, mas ainda lhe faço uma última pergunta:
– Quantos anos você tem?
– 25 anos (ela já havia falado que o marido tem 27 e é muito imaturo, por isso se comporta de forma que ela não gosta).
– Aos 25 anos você me parece uma moça muito madura. Pelas conversas que temos, as coisas que você me fala e planeja para sua vida, me fazem pensar o quanto é madura. Por que você acha natural que ele, aos 27 anos, seja imaturo?
Nessa hora ela fica ainda mais atordoada e o defende ainda mais. Decido parar a conversa, falando algo conciliador, mas percebo que ela captou o que eu estava lhe dizendo, porém ainda não consegue aceitar sua própria percepção.
Penso: O homem achou uma desonra a mulher não aceitar adotar seu sobrenome e em nossa cultura muitas pessoas achariam a mesma coisa. Esse mesmo homem age como um adolescente, lhe trata mal, é grosseiro, desrespeitoso e quanto a isso muitos ficam buscando justificativas, achando aceitável. Inclusive ela que está sendo agredida.
Será que alguma coisa está errada?
Percebem o machismo aparecendo ao vivo e à cores?
Quer dizer que adotar o sobrenome do marido é obrigação da mulher, mas respeito, companheirismo, cuidado, não é obrigatório para o homem?